- Vá George, vamos chegar atrasados a casa dos Pais! – Apressava Leroy – Já são dez e meia, ainda temos duas horas de viagem pela frente, e tu sabes que eles gostam de nos ter lá antes do resto da família chegar.
Era 25 de Dezembro de 2007, em casa de Leroy Wein. O seu irmão, George, estava lá a passar as férias de Natal. George tinha 18 anos na altura, estudava o 11º ano na escola (devido à viagem que a família fez no ano anterior) da sua terra natal, para onde se dirigiriam um quarto de hora depois.
- Deixa-me só descobrir como é que se dá o nó nesta estúpida gravata!
- Acalma-te George. Deixa-me ajudar.
- Não! Eu consigo fazer isto sozinho.
E Leroy ficava a observar o seu irmão mais novo a tentar desembaraçar-se sozinho. Como sempre. Como sempre George esforçava-se por fazer tanto ou mais, tanto ou melhor que o irmão mais velho. Agradava-lhe a maioridade, a independência, o descanso parental. Como sempre, Leroy não se preocupava com a persistência do irmão em ser melhor e maior que ele próprio. Já o era em altura, com uma diferença de uns 5, 10 centímetros. Era mais forte fisicamente também. Só não tinha uma coisa que Leroy tinha: contentamento. Queria sempre chegar mais e mais longe. Acontecia isso, por exemplo, na guitarra. Leroy sabia os acordes básicos, sabia tocar algumas canções que as pessoas no geral gostam. George tocava tudo e mais alguma coisa numa só canção. Sabia álbuns, bandas de cor. Tocava The Strokes, Led Zeppelin, King Crimson e Queen. Tinha um reportório enorme. Tinha uma banda com que tocar também, ou seja, tinha um empenho e dedicação enormes, um entusiasmo invejável. Não haveria possível descanso na sua vida. Não era um desistente.
A casa dos Pais situava-se em Naugatuck, a uns 140 km de Nova Iorque. Era um caminho com algumas curvas acentuadas, trânsitos. Uma viagem tanto poderia demorar uma hora, como 4 horas, conforme o trânsito. A média, como Leroy calculou era de duas horas, das várias vezes que tinha feito o percurso (Aniversários, Natais, Dia de Acção de graças, etc).
- Pronto! Vês? – Exibia George, a sua Gravata ao irmão.
- Uau, inventaste um novo tipo de nó, maninho.
- Não me importa. Está feito!
- Uma aposta em que a mãe vai reclamar?
- Para quê? Iria perder! Mas deixa... Também não está assim tão mal. Nem está trapalhão! Se estivesse, concordaria!
- Mas não está aos teus olhos. O pai também vai dizer que está mal.
- Não me importa. Vamos lá fazer a viagem. Quanto mais rápido lá chegarmos menos no chateiam no principio. Se bem que me apetecia chegar mais tarde, só para me chatearem o menos tempo possível.
- Vá lá, não sejas assim, George. Esforça-te para que não haja merda. Pensa só em não fazer cenas à frente do resto da família.
- Mas não sou eu quem as faz! São...
- George! – Contestava Leroy, olhando-o nos olhos, com uma força penetrante.
- Vou tentar! Mas tens de concordar comigo que quem começa sempre são eles.
- George, tens de engolir muitos sapos para que haja estabilidade na casa. Tens de levar menos a sério a tua posição em casa. Serás sempre visto como um filho para os pais. Terás sempre a falta de razão nas discussões. Eles são a autoridade. Sim é uma merda, mas não vale a pena lutar contra eles.
- Talvez contra eles não valha a pena, mas contra a autoridade sim! E se eles são a autoridade, há que lutar pelos meus direitos.
- George! – Gritava desta vez sem paciência – Pensa desta maneira: São eles que te pagam a comida, o tecto, os estudos, a mobília que usas, e caprichos. Mete isso na cabeça, come e cala-te.
- Ok, ok! Seja como for, também estou farto de falar sobre eles. Vamos mas é parar com a conversa antes que chegue a casa já farto deles. E se fossemos para o carro?
- Sim, sim. ‘Bora lá.
E Leroy carregava no botão do elevador, para que este viesse ter ao andar onde se encontravam. Esperava que a viagem não fosse prolongada nem que houvesse algum tipo de chatice em casa dos pais.
Ouvia-se um “tlim” que anunciava a chegada do elevador.
Metiam-se os dois lá dentro e George começou outra conversa:
- Gostei do Flat. É pequenino mas aconchegante.
- É, eu também o adoro. E em relação à renda que pago, nem me queixo. É menor que o próprio flat.
- Posso-te perguntar quanto pagas?
- Claro, se não, não vinha com essa conversa.
- Então e quanto pagas?
- Uns míseros 500 dólares.
- Bolas...
- Sim, parece algo, mas poupei o suficiente para estar 4 meses sem emprego. E já tenho um há quase dois meses.
- Hmm... E estás a fazer o quê?
- Bem estou a trabalhar na recepção de um hotel 4 estrelas. Só preciso de um sorriso na cara, atender chamadas e 12º ano, o que inclui falar espanhol.
- A parte do sorriso é que era posta de parte, mas até parece fácil.
- Sim, para o que me pagam...
- Epá, queres falar de dinheiro, fala. Mas faz sem rodeios! – Ria-se George – É que para além do tempo que estamos a perder na conversa, estás-me a irritar com as quantidades de dinheiro que me estás a dizer. Vá lá, diz quanto te pagam!
- Ahah, sabia que não irias resistir. Uns valentes 1000 dólares.
- Epá vai-te lixar!
- Mas pensa que metade vai para a renda, 300 dólares para a comida e o restante, poupo para as propinas.
Um outro “tlim” era ouvido anunciando a chegada ao rés-do-chão.
- Para as propinas? Não é um bocadinho demais?
- Sim vai restar no fim do semestre, mas aí faço o que me apetecer ao dinheiro. Como por exemplo, comprar presentes à família, presentes para mim, e etc. Também, ainda gostava de mobilar o flat. A cozinha ainda está um pouco vazia.
- Hmm pois. Eu só sei que estou mortinho por estar a viver uma vida assim.
- Então pensa em levantar as médias. – Dizia Leroy, abrindo a porta para o exterior.
- Epá, cala-te tu também. Um 15 é bom para o que eu quero!
- E o que é que tu queres?
- Sei lá uma engenharia onde me safe. Eu só preciso da média para um segundo plano. O que eu quero mesmo é seguir música e tu bem sabes disso.
- Eu sei. Ajudei-te na compra da telecaster, só porque acho que és promissor no mundo da música.
- Obrigado Leroy. Sei que a acção foi muito mais, mas ouvir palavras dessas confortam-me.
- I’d become...
- Comfortably Numb.
- Muito bem. – Sorria Leroy. – Tens ouvido Pink Floyd.
- Sim, até tinhas razão.
- Ah era? No quê?
- Que o Gilmour é um génio.
- Eu bem te dizia. Mas teimavas em não acreditar. Sempre disseste que Another Brick in the wall era comercial.
- E ainda o digo...
Já na rua, dirigiam-se para o carro de Leroy, um velho Peugeot 107 preto. Era o contraste perfeito com a neve que caía do céu. Curiosamente, a cor ainda se lhe via, mas muito vagamente.
- Espero que não esteja muito gelado, dentro do carro... – Acreditava George.
- Nem penses em despires-te dentro do carro. É um 107. Era do avô Troy, lembras-te? Não tem ar condicionado.
- Uff. Espero que tenhas um cobertor dentro do carro.
- Tenho, tenho. Descansa maninho, vais a viagem quentinho. Mas não te deixo molhares-me o cobertor. Vais ter de tirar o casaco.
- Melhor. Não fico encharcado.
- Mas olha que vamos a fazer turnos. Uma hora eu, outra hora tu.
- Bolas para ti, Leroy!
Leroy destrancava o carro enquanto George se despachava a enfiar o seu corpo dentro do minúsculo carro.
- Ahhh – Gemia George de prazer.
- Assim é que se está bem. – Concordava Leroy, já dentro do carro. – O cobertor está aqui atrás – apontava para a mala do carro.
- Ok. Vou só despir o casaco.
Depois do esforço enorme de tirar a peça de roupa no tão pequeno carro, George atirava o casaco para a mala, retirando rapidamente o cobertor, para se esconder do frio Invernoso.
- Brrrr. Com este frio, mudamos de turno na primeira área de serviço que encontrarmos. – Dizia Leroy.
- Na-nah. – Negava George. – Paramos na terceira área de serviço como de costume.
(...)
Sorry
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Apenas para tentar picar-me para escrever mais, tou um bocado parado. Mostro-vos apenas este bocadinho. Esta é a ultima! Abraços
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